16 janeiro 2010

A libertação pela leitura

Carlos Lúcio Gontijo

Não existe espírito mais prisioneiro do que aquele que habita a mente de pessoa que jamais lê. A leitura tem o mérito de transformar o ser humano por meio da ampliação de seu conhecimento e, ao mesmo tempo, sensibilizá-lo em relação à necessidade de contribuir, como cidadão, para a construção de uma sociedade em que a convivência entre as pessoas se estabeleça de forma harmoniosa e fraterna, seguindo na prática o amor ao próximo pregado por Jesus Cristo.
Hoje os cientistas comprovam que a área do cérebro ativada ao ler é a mesma que entra em ação quando a pessoa assiste às imagens de um filme. Ou seja, de acordo com os cientistas, a área ativada quando uma pessoa lê e imagina uma cena é a mesma que é acionada quando a imagem está em uma tela de cinema. Contudo a leitura leva a vantagem de fazer com que o indivíduo saia de si mesmo e use a sua própria criatividade para imaginar cenários, colorir paisagens e vestir os personagens da forma que bem entender.
Nada mais sensibilizador do que a leitura de um poema, que tem o dom de conter e frear angústias e sentimentos violentos, proporcionando ao indivíduo o indispensável equilíbrio para viver (e conviver) em comunidade, onde não existe cidadão que tenha nascido para ser ruim ou seguir o caminho do mal e sim cidadão que caiu em erro por não ter encontrado oportunidades e principalmente acesso a uma educação de qualidade, na qual a leitura – mais que hábito – deve ser ministrada para tornar-se um gosto, um prazer.
A grande verdade então é que, da mesma forma que não há sementes ruins e sim o mau cultivador, não existe também o ser humano que nasceu para perpetrar atos contra os seus semelhantes e cometer atitudes avessas aos princípios e normas sociais. E uma das ferramentas mais eficazes de recuperação e transformação da pessoa é a democratização do acesso ao livro, que precisa ser levado pragmática e insistentemente às pessoas, sob a certeza de que o Estado que não educa sua gente termina obrigado a castigar e punir, com os rigores da lei, o cidadão extraviado.
Enfim, caros amigos, a lição que fica em nós após a leitura de cada livro é que não existem amarras nem correntes que consigam prender ou deter o espírito daquele que sempre se dispõe a abrir as janelas de um livro e deixar-se levar pelos horizontes ensolarados do conhecimento e da poesia, que se lhe apresentam iluminando os caminhos de esperança e possibilidades de realização individual e coletiva, ao lado da família, dos amigos e de toda a sociedade, que exige a união de todos para gerar um ambiente de plena liberdade.
Carlos Lúcio Gontijo
Poeta, escritor e jornalista
www.carlosluciogontijo.jor.br

20 novembro 2009

De jornais, música e literatura

Carlos Lúcio Gontijo


O terceiro jornal mais antigo do Brasil, “Monitor Campista”, de Campos dos Goytacazes, no Norte fluminense, fundado em 4 de janeiro de 1834, fechou suas portas, provocando a demissão de 40 pessoas, entre jornalistas e funcionários.
O “Monitor Campista” era órgão de imprensa pertencente aos Diários Associados, que ao que parece não se prende muito a essa coisa de tradição e história, pois em meados de 2007 encerrou as atividades do “Diário da Tarde”, um jornal de Minas Gerais que havia iniciado suas atividades em 14 de fevereiro de 1931.
Contudo, o fato verdadeiro e inarredável é que ninguém tem qualquer consideração com o culto à palavra, à língua portuguesa falada no Brasil, à cultura como um todo, passando-nos a cruel constatação de que, em última análise, o recado implícito é que se danem os jornais impressos, os livros e os leitores. Ademais, não é difícil de se levar ao fechamento a maioria dos veículos de comunicação impressos no País, uma vez que basta aos governos federal, estaduais e municipais cortarem a injeção de recursos, para que a bancarrota se lhes venha à tona quase que imediatamente, dado os proprietários de jornais contemporâneos não suportarem qualquer prejuízo.
Ou seja: não amam o que fazem e estão no ramo unicamente em busca de lucro. Não sendo portanto à toa que o noticiário e a cobertura jornalística consomem um volumoso número de páginas voltadas para o mundo dos negócios – constituindo-se uma maneira bem engendrada de aproximar os donos de jornais aos senhores do capital.
No caso do “Monitor Campista”, bastou que a Prefeitura de Campos dispensasse o espaço destinado à publicação das edições do Diário Oficial do Município para que o jornal assistisse a um processo de insolvência quase que imediato, o que certamente deve servir de alerta a veículos impressos (de grande ou médio porte) que firmam a sua arrecadação nas publicidades institucionais, gerando uma dependência financeira e editorialmente comprometedora.
Infelizmente, as agruras que atravancam o setor jornalístico também podem ser encontradas na área musical. Valter Alfaiate, sambista carioca que foi descoberto aos 68 anos, não pôde abandonar a costura, pois a música não lhe rende o suficiente para viver, apesar de todo o reconhecimento em relação ao seu talento como compositor e cantor, numa prova de que a opção pelo grotesco é hoje uma realidade praticamente intransponível: “músicas” como boquinha da garrafa, você não vale nada, mas eu gosto de você e tantos outros “enredos” parecidos se sucedem no pódio das produções artísticas descartáveis.
Entretanto, se o dom da pessoa é a poesia e a literatura, o problema se agrava, pois os incentivos são escassos e, quando existem, acabam nas mãos de gente graúda e especializada na montagem de projetos para acessar verbas públicas. Nossos amigos escritores independentes (João Silva de Souza, Regina Morelo, Antônio Carlos Dayrell, Antônio Fonseca etc.) são intelectuais idealistas que editam a expensas de si mesmos, realizando um luzidio trabalho de cultura e sensibilização dos que têm contato com suas obras e cultuam o indispensável hábito de leitura, que no Brasil não predomina nem em classe nem categoria alguma. Ou seja, não leem os professores, os alunos, os jornalistas, os médicos, os engenheiros, os políticos, o presidente da República e, evidentemente, muito menos os analfabetos.
Carlos Lúcio Gontijo
Poeta, escritor e jornalista
www.carlosluciogontijo.jor.br

26 outubro 2009

da classe
dominante brasileira


HÁ DUAS SEMANAS, as elites dominantes brasileiras usaram todo seu arsenal a disposição: rádios, redes de televisão, jornais impressos, colunistas de plantão, jornalistas pré-pagos, parlamentares oportunistas, ruralistas e até autoridades judiciais para denunciar um vandalismo sem precedentes: a destruição de mil pés de laranjas por militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
Isso era inconcebível. “Queremos punição!” Bradavam, exigindo nova Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para criminalizar o MST e todos os que lutam por mudanças neste país. Afinal, nada melhor do que manter o mundo perfeito em que vivemos; não precisa mudar nada e muito menos lutar por mudanças.
Alguns mais afoitos chegaram a concluir: é o fi m do MST. Outros, com verso e prosa declaravam o fim dos movimentos sociais e da reforma agrária. E num só coro, todos clamavam: basta de vandalismo, desses pobres diabos do campo!
Mas a realidade brasileira e a luta de classes é bem mais dura do que seus confortáveis apartamentos e seus diferenciados rendimentos, pagos pelas empresas de comunicação (ou pelo povo?).
Independente das pacatas laranjas e das manipulações da Cutrale/Coca-Cola, detentora de 50 mil hectares distribuídos por mais de 30 fazendas, as duas semanas que se seguiram deram uma demonstração cruel do vandalismo estrutural e ideológico que domina as mentes e a política da classe dominante. Vamos recordar apenas alguns fatos, já que a memória tão curta da grande imprensa os calou:
1. Um incêndio mal explicado numa favela da região oeste de São Paulo deixou centenas de famílias sem absolutamente nada. Ninguém procura explicar porque, em pleno século 21, famílias de trabalhadores ficam expostas a essas condições de vida e riscos absurdos, na maior e mais rica cidade do hemisfério sul;
2. Enchentes e temporais transformam pacatas cidades do interior e grandes metrópoles em verdadeiros infernos. Mas ninguém explica para a população a causa das mudanças climáticas e das “vinganças” da natureza;
3. Oitenta e três trabalhadores da construção civil foram resgatados pela Polícia Federal, pois estavam trabalhando “em condições análogas à escravidão”. Sabe onde? Nada menos do que numa hidrelétrica, na região dos Parecis (MT). Logo as hidrelétricas, que representam tanto progresso;
4. Fazendeiros armados atacam um acampamento dos povos indígenas Kaiowa-guaranis, na região de Dourados (MS), colocam fogo em seus barracos e pertences e os expulsam. Os indígenas perderam tudo, menos a dignidade. Não houve mortes, milagrosamente, porque realizaram a ação à luz do dia, certos da impunidade. Detalhe: as terras da fazenda são dos povos indígenas. Quem é o verdadeiro invasor?;
5. Não bastassem os fatos do Brasil rural, eis que a violência social emerge sem controle nas cidades. Num final de semana no Rio de Janeiro, um helicóptero derrubado, dezenas de mortos, entre moradores, traficantes e policiais. Oito ônibus incendiados. A notícia poderia ser algum distante cenário de guerra, mas não, é na “cidade maravilhosa”. Muitos bairros do Rio vivem em guerra entre traficantes, polícia e milícias armadas e alimentadas pela classe dominante;
6. E a enfermidade social desse vandalismo estrutural, praticado pelas elites, aparece também nas atitudes pessoais de uma classe disposta a tudo para proteger seu patrimônio material. O irmão de um ex-governador de São Paulo, da “fi na flor” paulistana, assassina o próprio fi lho, por causa do mau uso do seu automóvel, e depois se suicida. Triste pobreza ética;
7. O capitalismo propagandeado pela imprensa é o melhor dos mundos. Na agricultura seria um sucesso, com suas empresas e seus venenos. Ledo engano. A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) acaba de anunciar que neste mês a humanidade atingiu a marca de 1 bilhão de seres humanos que passam fome todos os dias. É mais do que vandalismo dos que controlam os estoques de comida, já que a produção existente é suficiente. É um verdadeiro genocídio acobertado pelas elites e por seus meios de comunicação.Como se vê, os fatos nos remetem a uma boa reflexão sobre os vandalismos praticados todos os dias pela classe dominante. Isso nos ajuda a pensar sobre quem

09 outubro 2009

A literatura e o jogo de pregos do Xisto Veneroso

Carlos Lúcio Gontijo


Em meu primeiro livro, fiz questão de me anunciar não como poeta ou escritor, mas tão-somente como sensibilista. O tempo passou e mais sensível diante do mundo em me fiz, enchendo-me de certeza que minha literatura não passa de soma e relato de memórias que se enraizaram física e espiritualmente dentro de mim. Às vezes me pego saudoso até de meus passos que ficaram incrustados no tempo, guardando as marcas de minha caminhada vida afora e contendo o peso de minhas esperanças e desesperanças como ser humano perante um planeta Terra cheio de senhores e sinhazinhas, que ainda vivem e se comportam como se a sociedade estivesse sob a égide histórica da casa grande e senzala.
Toda a minha literatura é fruto colhido em minha convivência com as pessoas que me rodeavam ou que me rodeiam, mas que independentemente do tempo me habitam como se eu fosse um lugarejo em carne, ossos e alma. São muitas as pessoas que me ajudaram a moldar a minha visão de mundo, auxiliando-me na formação de conceitos e impregnando-me da crença absoluta na prática do amor ao próximo como a maneira mais fácil de orar e agradar a Deus. Ou seja, somos o terço um do outro e, fora desse prisma, o que temos é a fé pobre de atos, gestos e ação.
Lembro-me constantemente de minha infância em Santo Antônio do Monte, quando aos nove anos escrevia os primeiros poemas e os escondia debaixo do colchão. Minha mãe foi a primeira a descobri-los e, também, a dar apoio para que o desenvolvimento do dom da poesia não se perdesse no emaranhado rude de uma sociedade que confunde a opção pela realidade como sinônimo de desapreço por estrela, pôr-do-sol, pés no riacho...
Naqueles bons tempos de menino em minha Santo Antônio do Monte, era parte dos meus sonhos simples de consumo sentar-me no bar do Xisto Veneroso – o Sô Xisto, que ensinou o meu pai José Carlos Gontijo a dirigir – para tomar refrigerante, chupar picolé, sorvete. Eu e os demais amigos gostávamos de disputar campeonatos de futebol numa tábua, na qual se desenhava um campo e se fixavam pregos como se fossem jogadores. Uma moeda (pratinha era o nome que lhe dávamos) fazia a vez de bola, que recebia uma tacada feita com o dedo, alternadamente, pelos contendores. Sô Xisto foi quem engendrou a melhor tábua de jogo e deu ao filho Oswaldo, que nos permitia usufruir do disputado brinquedo.
E eis que estava certa feita no bar do Xisto tomando refrigerante com sorvete, enquanto caía uma chuva fina que, aos poucos, foi diminuindo até parar de vez. Ao sair, como já não chovia, acabei me esquecendo do guarda-chuva e, no dia seguinte, dirigi-me até o bar a fim de recuperá-lo. Sô Xisto, gentil e educadamente, pôs-se a procurar pelo guarda-chuva, mas chegou à conclusão de que alguém o havia levado. Chateado com o sumiço, apesar de não ter culpa alguma pelo ocorrido, me disse: “Olha, Lúcio, não tenho como lhe devolver o guarda-chuva! Mas que tal você ficar com o jogo de preguinho como compensação? Não pensei duas vezes e aceitei a proposta.
Disputei muitas partidas no especial brinquedo. Casei-me, vieram os filhos e com eles muitas vezes revivi a minha época de criança em Santo Antônio do Monte, cidade em que esqueci (ou perdi) os meus passos de menino e que, repetindo o gesto do Sô Xisto, não me podendo devolvêosme podendo devolvdo seu Xistopassos de menino e que vocuir do disputado bringuedo.
mpo habitaminda dividem peso de minha-los d -los, premiou-me com o alicerce de alma e sensibilidade que norteia a minha literatura, ensinando-me que “História verdadeira cheira a berço”, como um dia grafei num dos versos do poema “O ser poetizado”.
Carlos Lúcio Gontijo
Poeta, escritor e jornalista
www.carlosluciogontijo.jor.br




uso

02 outubro 2009

Dia do Professor, 15 de outubro

Carlos Lúcio Gontijo


A lamentável situação do ensino brasileiro, onde as crianças completam, em média, apenas quatro anos na escola, é responsável pelo baixo poder de mobilização da sociedade constantemente tripudiada e dirigida por uma elite que vai da empresarial, política, intelectual e religiosa até à indisfarçável elite sindical.
Não é preciso ser nenhum especialista em educação para observarmos que o planejamento estrutural do ensino brasileiro, principalmente o fundamental, se encontra pedagogicamente montado para atender 20% de sua clientela, uma vez que sua linguagem está voltada para os usos e costumes das camadas mais abastadas ou menos desafortunadas da população, o que explica o fato de muitos alunos abandonarem os estudos antes de completar o quarto ano. Ou seja, a própria formatação didática contribui para a ampliação da evasão escolar.
Os temas educação e saúde são tratados como prioritários apenas nos períodos eleitorais, quando os políticos, do alto de seus palanques, buscam a conquista dos votos necessários para alcançar o sonhado mandato, por meio do qual ao invés de se tornarem representantes do povo passam a ser representantes de si mesmos e dos grupos financiadores de suas campanhas.
A bem da verdade o governo brasileiro ainda se nos apresenta bastante distante de exercitar o investimento pleno em educação e saúde, que são setores onerosos e de resultados a longo prazo, que costumam ser colhidos a pelo menos uma geração depois de aplicados, ao passo que a eleição está sempre tão próxima. Não é à toa portanto que o Brasil, em matéria de educação, esteja ao lado da Indonésia, Paquistão e Bangladesh, situando-se assim entre os dez países que, juntos, arcam com 73% dos analfabetos de todo o Planeta. Por desestímulo, pobreza, distância da escola ou necessidade de trabalhar para ajudar no sustento da família, um número significativo de alunos deixam os estudos constantemente.
Diante de um quadro em que a administração pública não prioriza a educação, é lógico que os professores padeçam a saga do descaso e dos baixos salários. Em Minas Gerais , por exemplo, uma bibliotecária do ensino fundamental, mesmo com o propalado incentivo à leitura apregoado pelo governo do Estado, já em final de carreira, preste a se aposentar, com todos os quinquênios e penduricalhos possíveis, não ganha mais que 600 reais.
Indubitavelmente, ao constatarmos o nosso estágio educacional, somos tomados pela certeza de que as nossas autoridades constituídas seguem, com renitência e devoção, o famoso conselho de Lao-Tsé, filósofo chinês nascido na China ( 604 a .C), que recomendava aos governantes: “Enfraquecei os espíritos e fortificai os ossos”. Ou mais claramente: educar o povo é arruinar o Estado, colocar em perigo o poder totalitário – democraticamente legitimado pelas urnas e dependente da ignorância dos cidadãos, que subjugadas culturalmente não conseguem exercer em plenitude a sua cidadania.
Dessa forma – numa homenagem ao Dia dos Professores –, conscientes de que jamais seríamos o “escriba” (ainda que menor) que somos sem o apoio dos mestres que passaram por nossa vida estudantil, enviamos muitos livros de nossa autoria, em espontânea doação, às 18 bibliotecas conveniadas à Associação dos Amigos das Bibliotecas Comunitárias da Região Metropolitana de Belo Horizonte (SABIC), à Borrachalioteca (criação do jovem amigo Marcos Túlio Damascena, em Sabará/MG), além de passar exemplares ao idealista projeto “Livros ao Pé da Árvore”, sob o comando do sensível advogado e escritor João Silva de Souza, que esporadicamente sai, aos domingos e feriados, deixando obras literárias pelas praças da capital mineira afora, sob a esperança de que elas façam germinar, na mente das pessoas que as “pegarem”, a esperada flor primaveril sonhada por todos os bons professores e defensores da educação: o supremo e indispensável gosto pela leitura.
Carlos Lúcio Gontijo
Poeta, escritor e jornalista
www.carlosluciogontijo.jor.br

29 setembro 2009

A cultura do você não vale nada...

Carlos Lúcio Gontijo


A opção pela cultura do entretenimento e pelo patrocínio aos chamados grandes eventos semearam a falsa idéia de que a literatura voltada para a reflexão não faz parte do mundo cultural, sendo tomada como um estorvo na vida do cidadão à procura de lazer e diversão. Está aí, para não nos deixar mentir, a propaganda institucional da Caixa Econômica Federal, que preferiu enveredar-se para o modismo dos apelos fáceis e desprovidos de mensagem construtiva, ao prestigiar e premiar o arremedo musical “Você não vale nada, mas eu gosto de você”.
Não é à toa que um enorme contingente da população brasileira vive à custa de programas como o Bolsa Família e tantos outros instrumentos assistenciais públicos, cujo objetivo é amenizar os efeitos desastrosos da combinação entre a pobreza intelectual e a miséria material. A certeza absoluta nos dias de hoje é que, além do investimento na produção, é preciso criar condições de acesso democrático a ensino público de qualidade como forma de melhoria da educação e da mão de obra disponível no Brasil. Enfim, é preciso investimento maciço e duradouro no ensino de primeiro grau e ampliar a educação profissional dos adultos.
Os poetas e escritores não podem virar as costas para a situação educacional do País, pois a força da palavra escrita se acha diretamente relacionada com o grau de ensino dos cidadãos. É espantoso nos deparamos com dados que nos dão conta que um servente da construção civil do Canadá lê mais livros anualmente que um estudante de último ano universitário no Brasil.
Estamos na labuta literária desde o lançamento de nosso primeiro livro em 1977 e, ao longo dos anos, assistimos ao aumento das dificuldades em torno da edição de livros, apesar de o governo ter contribuído com a isenção de impostos para o exercício da atividade. Consciente das pedras no caminho dos autores literários independentes, que vão desde o levantamento de dinheiro para cobrir os custos editoriais, passando pelas agruras do momento do lançamento, quando os riscos de fazê-lo em solidão são grandes tanto no tocante a escritor conhecido quanto àqueles que não dispõem de prestígio junto aos meios de comunicação.
Jamais, como jornalista ou como poeta e escritor, perdemos de vista a realidade sob a qual exercemos o nosso trabalho literário. Infelizmente, sempre existiu no Brasil uma pobreza irredutível, formada por pessoas reconhecidamente incapazes – por baixo nível educacional e formação profissional insuficiente ou mesmo saúde precária – de viver por conta própria e que, assim, necessitam de assistência direta dos governos federal, estadual e municipal. Contudo, definitivamente, não alcançaremos melhoria alguma enquanto o trabalho de conscientização não contar com educação de qualidade, razoável índice de leitura e com a divulgação de trilhas sonoras populares bem acima do festejado “Você não vale nada, mas eu gosto de você”.
Carlos Lúcio Gontijo
Poeta, escritor e jornalista
www.carlosluciogontijo.jor.br